15 de mai de 2010

Giz e lousa, com licença... as NTICs estão chegando....

Cristina Alvares Beskow. Comunicação, educação e inclusão digital: quem tá ligado na escola estadual paulista: uma análise da interatividade no projeto TôLigado: O Jornal Interativo da sua Escola. 2008. Dissertação (Mestrado em Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação) - Escola de Comunicações e Artes da USP, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Orientador: Brasilina Passarelli. 250 f.


Organizada em seis capítulos, sendo a introdução considerada o primeiro da dissertação de Cristina Alvares Beskow que aborda a adoção das novas tecnologias nas escolas públicas paulistas e a parceria com a Escola do Futuro/USP com um projeto pedagógico virtual chamado “Tô Ligado”, um jornal interativo. Além dos capítulos, a autora apresenta na composição listas de ilustrações, tabelas, gráficos e siglas dando uma visão imagética ao objeto da pesquisa.

A autora debruça-se sobre o objeto de pesquisa intitulando Comunicação, educação e inclusão digital: quem tá ligado na escola estadual paulista: uma análise da interatividade no projeto TôLigado: O Jornal Interativo da sua Escola”, composto de 250 folhas, tendo sua Dissertação de Mestrado defendida em 2008 sob a orientação da professora Brasilina Passarelli.


Novo campo de intervenção social

O segundo capítulo aborda a “Comunicação e Educação na contemporaneidade: um desafio para a Escola Pública” transitando por questões que vão da interface entre comunicação e educação à educomunicação, às novas tecnologias, à cibersociedade, à cibercultura e ao ciberespaço.

Ao fazer um relato sobre a aproximação entre comunicação e educação, aponta as contribuições que ganharam força entre as décadas de 1960 a 1980 e que nos dias atuais se mesclaram em projetos, atividades, ideias e iniciativas, a saber: a Escola de Frankfurt com a temática da Indústria Cultural (década de 60); os estudos da Recepção na América Latina (década de 70); os estudos semióticos no Brasil com a teoria dos signos, da teoria hegemônica e a ideia do intelectual orgânico de Gramsci e os princípios da educação emancipadora e dialógica com Paulo Freire (todos na década de 80).

Lembra que a partir da liderança da Unesco em realizar publicações e discussões sobre a relação entre educação formal e os meios de informação, os anos de 1990 são marcados por diversas iniciativas de países fazendo uma integração do conteúdo midiático ao currículo escolar. No Brasil, apesar dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) terem incentivado sua inserção na escola, a iniciativa só ganha força com o desenvolvimento das redes de informação e com a necessidade registrada de que era preciso um novo campo de intervenção social que integrasse a dimensão crítica e construtiva na educação para os meios e do uso das novas tecnologias no ensino, como aponta o pesquisador Ismar de Oliveira Soares do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE/USP).

Essa ideia de campo se concretiza no conceito de educomunicação, expressão criada por Mario Kaplún, sendo ressignificado e definido por Soares. A autora resgata os modelos de educação e comunicação presentes na sociedade definido por Kaplún nas categorias endógeno (educando/comunicador é sujeito; educação/comunicação com ênfase no processo) e exógeno (educando/receptor é objeto; educação/comunicação com ênfase nos conteúdos e efeitos).

A partir da contextualização da pesquisa realizada em 1997 por Soares com pesquisadores da USP e da UNIFACS que resultou na definição de possíveis áreas de intervenção, Blaskow afirma que sua pesquisa se encaixa nas áreas de “mediação tecnológica na educação” e “gestão da comunicação”. Justifica, assim, porque fez um levantamento teórico sobre os conceitos que caracterizam a Sociedade da Informação, a inclusão digital e a incorporação das novas tecnologias nas escolas públicas do Estado de São Paulo.

Neste contexto de cibercultura, a autora aborda questões de descentralização, anonimato e controle de informações sobre a vida de usuários de determinada comunidade virtual que ficam armazenadas e disponíveis aos usuários, criando um espaço de conexões em que se misturam o público e o privado. Aborda também os processos históricos pelos quais a educação passou da Idade Média ao Estado-Nação, da Revolução Industrial aos dias atuais com a revolução das novas tecnologias de informação e comunicação (NTICs).

Conta a história da inclusão digital nas escolas públicas paulistas até chegar às parcerias realizadas com universidades públicas para capacitação no programa de formação continuada na área de informática, dentre as parcerias encontra-se a Escola do Futuro/USP, resultado do projeto Tô Ligado.


Interatividade e produção do conhecimento

“Navegando no TôLigado” é o capítulo seguinte que faz uma contextualização do projeto concebido para estimular a produção do conhecimento entre alunos, professores e gestores das escolas estaduais do Estado. É constituído de um site que “possibilitava a interatividade no ambiente virtual se transformasse numa ferramenta pedagógica, impulsionando a criação de uma comunidade virtual de aprendizagem da rede estadual de educação”.

Elenca sua hipertextualidade e os diversos canais presentes no site, suas áreas de interatividade, interação ser humano-computador, atividades de produção do conhecimento. Dá-se destaque à forma e a usabilidade do site que apresenta duas versões: uma em html (simples textualidade) e outra multimídia com elementos interativos, animação e efeitos sonoros. A autora dá também destaque especial à produção de conhecimentos, a menina dos olhos do projeto, e à interatividade que se deu pela escolha das ferramentas de comunicação que promoveu os encontros virtuais e presenciais entre os interlocutores.

O método escolhido foi o etnográfico em duas etapas: a etnografia virtual e a etnografia na escola pública. No contexto virtual, a etnografia se dá pelo estudo da Internet e sua rede de interações, composto de “métodos informacionais que podem ser utilizados enquanto instrumentos de pesquisa”. Continua sua descrição, descrevendo os procedimentos da etnografia virtual no contexto de sua pesquisa. Seu contato enquanto pesquisadora se deu na frente da tela e, presencial, nas escolas com o contato com professores e ex-participantes do projeto, pois no momento da pesquisa, o projeto já havia encerrado por forças contratuais.


Interatividade, acesso e produção

O quarto capítulo intitulado “Tô em Rede: Uma análise da Interatividade” fala do acesso e expressão do programa e de suas publicações entre os anos de 2002 e 2005. O panorama da interatividade nas atividades de produção do conhecimento são traçados a partir de informações obtidas junto à Escola do Futuro, à Gerente da Gerência de Informática Pedagógica (GIP) e da então, coordenadora do projeto na ocasião.

Menciona os períodos em que ocorriam as capacitações, os motivos da discrepância entre acessos e publicações. Um deles poderia ser em relação à senha de acesso para publicação de conteúdo que ficava em posse de um professor. “O fato de alguns agentes sociais possuírem o domínio da senha possibilita que eles tenham mais poder em relação aos outros agentes, como os alunos, concentrando a publicação nas atividades em algumas poucas mãos,” salienta apontando a restrição de autonomia sofrida pelos alunos.

Faz uma etnografia das publicações, analisando 10% das publicações referentes a 135 escolas, em quatro partes, passando pela origem das publicações entre a produção e reprodução do conhecimento, utilização dos recursos de multimídia, presença dos temas transversais dos PCNs. Interessante vê a constatação da autora no que concerne ao “copia/cola” textos da Internet nos espaços reservados à publicação num total de 37%, ao passo que 44% citaram a fonte do material copiado.


Giz e lousa, com licença...

Finalmente, o quinto capítulo falar sobre “Um olhar sobre a Escola Estadual Paulista na Era da Informação”, fazendo um retrato das questões tecnológicas sobre as duas escolas públicas estudadas em São José do Rio Preto. Essas escolas foram escolhidas pelo grau de envolvimento na produção de conteúdo durante o projeto.

Esses educadores são convidados a passar da “geração giz e lousa” para uma nova realidade que tem como foco o universo das novas tecnologias. A pesquisadora aponta as dificuldades sentidas diante da chega dos computadores, da falta de preparo deles para manuseá-los e adaptar sua própria metodologia e proposta de ensino, que deveria ser diferente daquela que estavam acostumados a trabalhar.

Para evidenciar concretamente a real situação da educação pública paulista, a autora realizou pesquisa em matérias jornalísticas publicadas em 2007, consulta junto ao Dieese e Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp) e depoimentos de educadores e professores das escolas investigadas.

Além de fazer um panorama do uso das NTICs nas escolas para apontar o nível de competência nesse quesito na escola pública paulista, a pesquisadora fez levantamento de memórias do projeto, evocando as lembranças dos educadores a fim de detectar como se deu o percurso do projeto, desde sua capacitação, utilização e encerramento.


Uma rede de interconexões

“Uma rede de considerações finais” brinda a dissertação com apontamentos da autora evidenciando a rede da escola pública paulista e seus agentes sociais que vai interligando os nós entre seus membros e os parceiros convidados a interagir, o que levou à formação de uma comunidade virtual.

Finaliza sua discussão mostrando os avanços da inclusão digital na escola que necessita de uma intenção pedagógica como a do projeto Tô Ligado que se deparou com o despreparou dos educadores e a baixa infraestrutura nas escolas. Diante do quadro, organizou as dificuldades em fatores macroestruturais (organizacionais e materiais) e microestruturais (instituição pública escolar e seus agentes sociais), que se organizam num contexto de interligações, ora fazendo o processo alavancar ora freando-o.

Seus apontamentos vão na direção de um projeto educativo e comunicativo capaz de potencializar as relações educativas e a proposta de ensino-aprendizagem das escolas rumo a criação de ecossistema comunicativo como o Tô Ligado que proporcionou enquanto durou. Salienta os pontos que merecem um estudo mais aprofundamento em futuras pesquisas: a dificuldade em produzir conhecimento e as possibilidades educativas que os ambientes virtuais proporcionam às instituições escolares.


Adentrando, a literacia informacional

Dois anos se passaram de sua defesa e a temática continua instigante pela ousadia das novas tecnologias com seus novos softwares de redes sociais e dispositivos móveis que vem atraindo grande número de pessoas. Vale ressaltar que a questão do “copia/cola” é preocupação mundial e foi recentemente divulgada em pesquisa de universidade portuguesa que detectou que essa geração procede dessa forma com naturalidade.

Trata-se da literacia informacional que dá sua contribuição no sentido de aprimorar a capacidade crítica de buscar, avaliar, escolher e usar informação. Muitos a traduz como alfabetização digital. Mas é mais que isso. É necessário convergência entre as competências instrumentais, cognitivas e crítica das pessoas.

A situação é mais desafiadora ainda porque não se trata de dizer que o internauta/estudante está pesquisando equivocadamente. É preciso sondar suas verdadeiras intenções e “saberes” no sentido de conhecer (apropriar-se do conhecimento), saber-fazer (conhecimentos de manipulação da informática e navegação na Internet) e saber-ser (atitudes).

Em Portugal tem um trabalho intenso nas instituições educativas em torno do tema. Aqui no Brasil ainda está se constituindo enquanto campo de pesquisas através da linha de pesquisa “Observatório da Cultura Digital” da Escola do Futuro.
A leitura da obra é mediada pela pesquisadora como um percurso de fatos, evidências, posicionamentos, experiências e apontamentos de maneira cativante, sem ser cansativa. Sua tessitura acontece como uma rede de nós que vão se interligando, complementando e interagindo em cada um dos capítulos até brindar com elegância e coerência as considerações finais.

Aqueles educadores que querem compreender como vivenciar a potencialidade das novas tecnologias na dinâmica de suas aulas, em seus espaços educativos, precisam ser esta obra. Seus apontamentos, mostrando a competência educomunicativa quando entra em cena é um estímulo a todos que queiram compreender como integrar esse novo campo de intervenção social a sua prática educativa.

* Antonia Alves Pereira – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo.

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