30 de jun de 2008

Diálogo é a situação ideal de fala no ambiente educativo

Quem nunca escutou a expressão: “vou ficar quieto pela paz da nação”? Certamente, todos já passaram por uma situação parecida para não gerar um clima de conflito em uma situação que parecia irremediável. No entanto, o posicionamento de “ficar quieto” não levou a um consenso quanto ao assunto discutido nem à paz de espírito de quem decidiu pela ação de ficar calado. Pelo contrário, levou à mediocridade, à mesmice ou até mesmo à conformidade com uma situação de autoritarismo.


Procurar o consenso não é fugir de situações desafiadoras, dolorosas ou problemáticas nos ambientes educativos, pois para se chegar a ele é preciso garimpar opiniões divergentes pelo uso de argumentos verdadeiros, coerentes e sinceros, condições essenciais no exercício da competência comunicativa resultante da Teoria da Ação Comunicativa (TAC) do filósofo alemão Jünger Habermas (1981).

Para ilustrar essa possibilidade na escola, cito a pesquisa-ação (outubro/1999 a março/2001) realizada por Silvia Elizabeth Moraes com o objetivo de situar a discussão da autonomia e gestão democrática da escola pública brasileira dentro da TAC. Sua pesquisa levou esse conceito para as práticas pedagógicas no sentido de sua transformação partindo de uma postura “autoritária, fragmentada e individualista para uma visão democrática, integrada e baseada no trabalho coletivo, na solidariedade, na comunicação, na troca de experiências, no confronto de idéias e na busca do consenso”. Nessa teoria a peça central é a situação ideal de fala, ou seja, o diálogo que exige o cumprimento de quatro requisitos de validade: compreensibilidade do pronunciamento, verdade de sua proposição, correção e adequação dos desempenhos e autenticidade dos interlocutores. (MORAES, 2002).

Os envolvidos em sua pesquisa chegaram à conclusão de que há necessidade da TAC no cotidiano escolar até por questão de sobrevivência. “Nossas grandes questões requerem que nos sentemos em volta das mesas de negociação a fim de encontrarmos solução para os conflitos que nos rodeiam” expressou um deles. Ela constatou ainda que os resultados do trabalho entre coordenadores e diretores deixaram-nos mais seguros e até as “regras de convivência entre os alunos em sala-de-aula foram influenciadas pela reflexão sobre a situação ideal de fala” (MORAES, 2002).
Ao meu ver, sua pesquisa é educomunicativa na essência e para ampliar essa discussão, trocaria a palavra “influenciada” por “negociada”, pois a Educomunicação está fundamentada na Teoria da Recepção (anos 70) que considera os indivíduos como interlocutores de negociação através das mediações cotidianas. Um dos principais estudiosos dessa teoria é Jesus Martín Barbero que considera estes estudos como um ponto importante para o resgate da complexidade da vida cotidiana, como espaço de produção de significado a partir da apropriação da mensagem.

O processo de negociação de informações leva à troca de conhecimentos e experiências para resolver problemas comuns ao grupo em questão mediante ao exercício da competência argumentativa que se manifesta no diálogo envolto pelo respeito mútuo, pelas normas e direitos de convivência compartilhados. Eis o cenário perfeito para se estabelecer a proposta de educomunicação (aproximação intencional entre comunicação e educação) que é um conjunto de ações destinadas a criar e fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativos para melhorar o coeficiente comunicativo das ações educativas. (SOARES, 2002).

Como uma orquestra que faz soar a mais bela sinfonia a partir da afinação e peculiaridade de cada instrumento, a Teoria da Ação Comunicativa e a Proposta de Educomunicação que está fundamentada na Teoria da Recepção, proporcionam um ambiente cativante para o florescimento das competências comunicativa e argumentativa na criação e animação de ecossistemas comunicativos.

Onde existe competência argumentativa inexiste coação e dominação de idéias, mas acordo consensual e negociado, pois o poder de convencimento se manifesta pela força dos argumentos. Essa competência faz interconexão com as competências cognitiva, lingüística e interativa pelo processo de interação, tornando-se essencialmente educomunicativa por estar livre de qualquer manifestação “tradicionalista, vertical e autoritária”, conforme constata Soares em entrevista ao Portal Educacional Aprendaki em 2007 que pode ser acessada pelo link www.aprendaki.com.br/entrevista_ver.asp?id=31 . Isso porque a competência argumentativa pressupõe o domínio da linguagem capaz de levar a uma comunicação interativa e verdadeira, correta e sincera.

Enxergar as competências comunicativa e argumentativa nos ambientes educativos é conceber um processo que se constrói por meio de ações comunicativas em que os sujeitos tornam-se competentes para discutir suas subjetividades, seus papéis sociais e os respectivos contextos de fala em vista do reconhecimento recíproco e do consenso na coordenação de ações que levem à execução de um plano comum.

Para viver o processo de valorização de todos os interlocutores num esquema de gerir ecossistemas comunicativos é preciso que existam lideranças democráticas capazes de estimular a situação ideal de fala (o diálogo) tendo como meta o consenso que por si só, é enganador daí a constatação de que o conflito e a divergência de opiniões são saudáveis ao processo de negociação.

Essa liderança é um educomunicador que inspira-se no maestro que lidera uma orquestra e que promove a articulação entre o princípio da realidade e o sonho para gerir uma comunicação coerente e sincera pelo uso do diálogo democrático e pelo desenvolvimento da habilidade de negociar e de estabelecer coerência das verdades enunciadas nos discursos. Desenvolve ainda três saberes fundamentais para a realização de sua missão: lidar com as pessoas, lidar com a informação e lidar com a tecnologia.

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