15 de jun de 2008

Aluno preguiçoso ou professor despreparado?

O mundo virtual é um desafio para educadores que precisam conhecê-lo para se apropriar de suas ferramentas em benefício da educação.“Mas que aluno preguiçoso.

Tá na cara que ele só copiou da internet e colou no word para entregar a pesquisa que pedi à turma!” Essa expressão faz parte do cotidiano escolar. Já saiu da boca de algum professor chateado com o resultado da pesquisa escolar sobre um determinado tema estudado em sala de aula.

Certamente, muitos de nós já ouvimos, assistimos ou lemos o seguinte comentário: “porque sei que o estudante copia da net e cola no trabalho escolar, não aceito mais trabalho digitado. Apenas manuscrito.” Essa expressão me entristece muito mais que a primeira, pois mostra o quanto o educador está despreparado para enfrentar a Internet, sua aliada e não sua inimiga.


Qual é a diferença entre copiar de um site que o buscador indicou ou copiar do livro da biblioteca? Isso mesmo. Por que ele tem o trabalho de escrever e não pode colar? Muitos acreditam que ao copiar/escrever retirando a informação do livro, o estudante aprende mais. E ele não aprenderia “copiando e colando”? Se ele não aprenderia é porque tem algum obstáculo no meio do caminho.

Há alguns anos era possível visualizar filas de estudantes na biblioteca à espera do livro “x” porque só nele e em seus poucos exemplares havia o tema desejado para a pesquisa. E como acontecia a pesquisa? Se fosse trabalho em grupo, sentavam-se em volta de uma mesa e começavam a copiar – já passando a limpo o trabalho. Não havia um rascunho. Quem não se lembra dessa fase? É claro que além de copiar o texto, os alunos conversavam de alguma experiência que estavam vivendo, criticavam um colega ou professor e assim por diante. Ah, detalhe: tudo no cochicho porque era imprescindível o silêncio naquele lugar de estudo.

Hoje eles não se sentam mais em volta da mesa, mas diante de um computador. Enquanto buscam na internet, teclam com os colegas no programa de mensagens instantâneas, respondem a comentários do Orkut, lêem e-mails, dando uma passadinha pela YouTube e, ainda, ouvem música... E quando saem da frente do computador, estão com dezenas de páginas com a temática pesquisada. A página em branco aceita tudo. “Mas vou colar tudo? A professora vai desconfiar...,” questionam-se diante do dilema e nesse momente fazem a escolha de algum algum conteúdo pesquisado, no entanto, não podem nem citar a fonte porque senão o professor vai descobrir que ele pegou da Internet e ainda descobrir qual o trecho que foi “plagiado”. Mas será que houve plágio? Houve alguma modificação no texto original ou simplesmente foi inserido tal e qual encontrado?

Diante do quadro apresentado, os educadores precisam se questionar sobre o seu papel na educação desses cibercidadãos. Precisam descobrir a beleza do ciberespaço e ganhar a confiança de seus estudantes. A rede mundial de computadores não é sua inimiga. Faça-a trabalhar a seu favor. Certa vez, estava ajudando um estudante a pesquisar na Internet sobre “Hallowen”. Encontramos diversas páginas interessantes e eu lhe sugeri acrescentar o item “fontes bibliográficas” para citá-las. Ele me respondeu assustado: “não pode. A professora não aceita”. Eu é que fiquei espantada com aquela situação. O fato aconteceu há apenas dois anos.

Então, educador, se quiser ser diferente e não mais um na escola, é hora de mudar de postura. É hora de tornar-se mediador do processo educativo. É hora de tornar-se educomunicador – o agente capaz de transformar e gerir processos comunicacionais dentro de sua própria sala com sua turma. Só assim, a escola poderá chegar a se tornar um “ecossistema comunicativo” capaz de melhorar o coeficiente comunicativo das ações educativas, relacionadas ao uso dos recursos da informação no processo de aprendizagem.

Eis algumas dicas para acabar com “copia/cola” nos trabalhos escolares:
1. Na hora de passar as instruções do trabalho, peça que os alunos façam um relatório de pesquisa, citando dia/hora em que a pesquisa foi realizada em qual site começou a busca e por onde percorreu até a finalização da pesquisa;

2. Peça que eles façam um diário/blog dizendo o que foi mais gostoso, mas difícil, mais chato na pesquisa;
3. Se o que lhe interessa é que eles aprendam mais sobre o assunto, peça que eles expressem o tema de forma criativa (texto, poema, paródia, desenho, escultura, etc.)
4. O material escrito que lhe foi entregue pelos alunos, não despreze. Distribua-o aleatoriamente entre os colegas para que eles grifem no trabalho do colega o que mais acharam interessante sobre o tema.
5. Depois redistribua a turma em grupo para elaboração de um texto final com as informações grifadas.

Se o professor assim orienta seus alunos, esses mesmos jovens vão chegar às universidades com um espírito investigador e serão gratos aos educadores que lhe deram a oportunidade de “fazer festa” com coisa séria. Quem sabe eles se tornarão pesquisadores. Dê a chance a seus alunos de não se sentirem culpados por navegarem nas ondas cibernéticas. Dê a chance a eles de recorrerem a vocês, educadores, como mediadores de um processo educativo que se estende ao longo do seu dia, mesmo distante da sala de aula física.

* Antonia Alves é educomunicadora e jornalista, gestora da área de Gestão de Educomunicação e Jornalismo do Portal Educacional Aprendaki – www.aprendaki.com.br.

Este artigo também pode ser lido no Blog.Aprendaki, no Blog Cibercidadania, no Portal Educacional Aprendaki.com.br e no Recanto das Letras

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